Em meados da década de 1970, o movimento literário batizado de Modernismo era o preferido e bastante valorizado por aqueles que elaboravam os exames vestibulares. Os vestibulandos eram obrigados a conhecer Oswald, Mário de Andrade, Manoel Bandeira, Guimarães Rosa etc etc. Em contrapartida o Parnasianismo era visto com desdém pelos mestres e com absoluto deboche pelos estudantes (o país estava em plena ditadura e os militares eram chegados num poeminha parnasiano. Que meigos!).
As características gerais do Modernismo chamavam a atenção: São Paulo fervia com as inovações trazidas pela Semana de 22 e com as novidades tecnológicas e se formava o caldeirão cultural que caracteriza a cidade até hoje, com a entrada em cena de ex-escravos, caipiras, imigrantes vindos de toda parte.
Começa a circular na cidade a obra do escritor Alexandre Marcondes Machado que usava o pseudônimo de Juó Bananére - auto denominado poeta, barbiere i soldato -, cujo texto se caracteriza por uma paródia escrachada do Parnasianismo usando a maneira de falar macarrônica dos imigrantes italianos. Alguns deles foram publicados no folhetim chamado O Pirralho, e em 1924 foram reunidos no livro La Divina Increnca (a segunda e última edição é de 1994, pela escola Politécnica). Bananére nunca fora valorizado. Nem pela sociedade da época, pois seu deboche chegou a incomodar as damas acostumadas com o clima de Belle Époque dos salões de chá paulistanos como também causou desconforto aos detentores do poder e da ordem. Tampouco os acadêmicos da década de 1970 captaram seu valor.
Os textos circulavam num circuito off, algum professor mais descolado levava pra classe, mas era o que os vestibulandos precisavam para gravar na memória para sempre algumas características do pré modernismo. São super engraçados, principalmente se você conhece alguma coisa do Parnasianismo e tem uma nonna e um nonno que falam desse jeito. Leia em voz alta depois ouça Adoniram Barbosa, trilha sonora apropriadíssima. Reproduzo aqui 2 poemas:
Uvi strella
(paródia de Ora direis Ouvir estrelas! de Olavo Bilac)
Che scuitá strella, nê meia strella!
Vucê stá maluco e io ti diró intanto,
Chi p'ra iscuitalas moltas veiz livanto,
I vô dá una spiada na gianella.
I passo as notte acunversando c'o ela.
Inguante che as outra lá d'un cantoStó mi spiano.
I o sol come un briglianto
Nasce. Oglio p'ru ceu: — Cadê strella!?
Direis intó: Ó migno inlustre amigo!
O chi é chi as strella ti dizia
Quando illas viero acunversá cuntigo?
E io ti diró: - Studi p'ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
É capaiz di intendê istas strella.
AS POMBIGNA
P'ru aviadore chi pigó o tombo
(Paródia de Vai-se a primeira pomba dispertada de Raimundo Correia)
VAI a primiéra pombigna dispertada,
I maise otra vai disposa da primiéra;
I otra maise, i maise otra, i assi dista maniera,
Vai s'imbora tutta pombarada.
Pássano fóra o dí i a tardi intêra,
Catáno as formiguigna ingoppa a strada;
Ma quano vê a notte indisgraziada,
Vorta tuttos in bandos, in lilêra.
Assi tambê o Cicero avua,
Sobí nu spaço, molto alê da lua,
Fica piqueno uguali d'un sabiá.
Ma tuttos dia avua, allegre, os pombo!...
Inveis chi o Muque, desdi aquilio tombo,
nunga maisa quiz sabe di avuá.
Quer mais? Vai lá: http://bananere.art.br/increnca.html
Eu tenho a Divina Increnca. Eu falo muito. Eu também estava na USP na década de 70. Eu também leio Paulo Moreira Leite. Vou voltar, me aguarde.
ResponderExcluirEca